Cefaleia

Enxaqueca menstrual: por que ela piora perto da menstruação e pode ser prevenida?

Dr. Rafael William de Souza

Neurologista

Enxaqueca menstrual: por que ela piora perto da menstruação e pode ser prevenida?
Neste artigo

Muitas mulheres percebem que a enxaqueca aparece ou piora nos dias próximos à menstruação. Essa relação é bem conhecida e tem base científica.

A chamada enxaqueca menstrual ocorre, tipicamente, entre 2 dias antes e 3 dias depois do início da menstruação, em pelo menos dois de três ciclos. Em algumas mulheres, as crises ficam restritas a esse período; em outras, também acontecem em outros momentos do mês.

Por que essas crises costumam ser mais difíceis?

As crises perimenstruais geralmente têm características que chamam atenção: podem ser mais intensas, durar mais tempo, voltar com maior facilidade e responder menos ao tratamento do que as crises que ocorrem fora desse período.

Também podem vir acompanhadas de mais náusea, sensibilidade à luz e ao som e maior limitação para as atividades do dia a dia.

É por isso que algumas pacientes relatam controlar razoavelmente bem a enxaqueca durante o restante do mês, mas ter crises muito mais difíceis justamente próximo à menstruação.

O que os hormônios têm a ver com isso?

O estrogênio parece ter um papel importante.

Nos dias que antecedem a menstruação, ocorre uma queda natural dos níveis desse hormônio. Na enxaqueca sem aura, as crises tendem a aparecer com maior frequência e intensidade justamente nesse período, quando o estrogênio está caindo mais rapidamente.

Essa relação é conhecida como hipótese da retirada do estrogênio.

Um estudo citado nas revisões mostrou que a queda do estrogênio na fase pré-menstrual foi cerca de 30% mais rápida em mulheres com enxaqueca do que em mulheres sem a doença. Mas existe um detalhe importante: essa diferença, sozinha, não foi suficiente para prever em quais ciclos uma crise realmente aconteceria.

Isso mostra por que é inadequado explicar a enxaqueca menstrual apenas como uma “dor de cabeça hormonal”.

O hormônio não age sozinho

A mulher com enxaqueca já apresenta uma predisposição neurológica para desenvolver as crises. A oscilação hormonal parece modificar essa susceptibilidade, reduzindo o limiar para que uma crise aconteça.

Um dos modelos discutidos nos estudos propõe que a combinação entre essa vulnerabilidade e outros fatores, como estresse e alterações do sono, pode facilitar o aparecimento da enxaqueca durante o período menstrual.

Portanto, o estrogênio é importante, mas não explica sozinho toda a doença.

E o CGRP?

Outro componente importante é o CGRP, uma substância envolvida nos mecanismos neurológicos da enxaqueca e na ativação do sistema trigeminovascular.

Os estudos sugerem uma interação entre estrogênio e CGRP. Quando os níveis de estrogênio estão mais estáveis, a susceptibilidade à crise pode ser menor. Quando ocorre queda ou grande oscilação hormonal, como nos dias próximos à menstruação, pode haver aumento da sinalização do CGRP e maior facilidade para a ativação das vias envolvidas na enxaqueca.

Esse mecanismo ainda está sendo estudado, mas ajuda a entender por que as oscilações hormonais podem influenciar tanto as crises em algumas mulheres.

Existe um tratamento específico para a enxaqueca menstrual?

Existe uma estratégia particularmente útil para algumas pacientes.

Quando as crises acontecem de forma bastante previsível ao redor da menstruação, pode ser considerada uma prevenção de curta duração, feita apenas durante o período de maior risco.

Isso é diferente do tratamento preventivo convencional, no qual o medicamento é utilizado continuamente ao longo do mês.

Na revisão sistemática e no consenso da European Headache Federation utilizados nesta pesquisa, houve evidência de benefício com algumas estratégias de prevenção perimenstrual, incluindo triptanos e naproxeno. Entre os medicamentos estudados estavam frovatriptano, naratriptano, zolmitriptano e naproxeno.

Em outras palavras, em algumas mulheres é possível começar o tratamento antes da crise esperada e tentar evitá-la ou torná-la menos intensa.

Isso não significa que todas as pacientes com enxaqueca menstrual devam receber esse tipo de prevenção. A escolha depende de vários fatores, como regularidade do ciclo, frequência das crises, intensidade, presença de aura, outros medicamentos em uso e características individuais de cada paciente.

E quando a enxaqueca acontece também fora da menstruação?

Nesse caso, pode ser necessário pensar em prevenção contínua.

Os estudos avaliados também mostram benefício de tratamentos preventivos tradicionais e de medicamentos direcionados ao CGRP em mulheres com enxaqueca relacionada à menstruação. Em alguns trabalhos, houve redução das crises tanto na janela menstrual quanto nos demais dias do mês.

Na prática, são situações diferentes. Há mulheres que têm crises quase exclusivamente perto da menstruação e outras que apresentam enxaqueca ao longo de todo o mês, mas com piora marcada nesse período. A estratégia de tratamento não precisa ser a mesma para esses dois grupos.

Quando vale a pena investigar esse padrão?

Se as crises aparecem repetidamente nos mesmos dias do ciclo, vale a pena observar essa relação com atenção.

Um diário de cefaleia associado ao calendário menstrual pode ajudar a identificar o padrão e fornecer informações importantes durante a consulta.

Anotar os dias de dor, intensidade, duração, sintomas associados e medicamentos utilizados permite saber se existe realmente uma concentração das crises na janela menstrual e ajuda a escolher o tratamento mais adequado.

A principal mensagem é simples: a enxaqueca menstrual é uma manifestação reconhecida da enxaqueca e não precisa ser encarada como algo inevitável todos os meses. Quando o padrão é identificado corretamente, existem opções tanto para tratar a crise quanto, em pacientes selecionadas, para tentar preveni-la antes que comece.

Dr. Rafael William de Souza

CRM PR 26931 • RQE 18196

Neurologista pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Especialização em Dor e aperfeiçoamento em Medicina Canabinóide pelo HC USP

Neurologia • Neurodesenvolvimento • Saúde Mental

Neurologia para todas as fases da vida.

Referências bibliográficas

  1. Braca S, Casillo F, Moreira S, et al. Sex-specific management of migraine: a systematic review and consensus statement from the European Headache Federation (EHF). The Journal of Headache and Pain. 2026;27:120.
  2. Kuruvilla DE, Hutchinson S, Moriarty M, et al. Understanding migraine throughout a woman’s life and the role of calcitonin gene-related peptide: A narrative review. Women’s Health. 2025;21:1–15.
  3. Singh S, Kopruszinski CM, Watanabe M, et al. Female-selective mechanisms promoting migraine. The Journal of Headache and Pain. 2024;25:63.
  4. Ghadiri-Sani M. Migraine in women: a review. Current Opinion in Neurology. 2025;38(3):271–276.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.

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