Cefaleia

Enxaqueca em adultos: sintomas, impacto na vida e possibilidades de tratamento

Dr. Rafael William de Souza

Neurologista

Enxaqueca em adultos: sintomas, impacto na vida e possibilidades de tratamento
Neste artigo

A enxaqueca é uma doença neurológica que pode interferir no trabalho, nas relações familiares e nas atividades de lazer. Para algumas pessoas, os episódios são ocasionais. Para outras, as crises frequentes e os sintomas associados comprometem uma parte importante da rotina.[1]

A avaliação considera as características da dor e suas consequências: quantos dias são afetados, quais atividades ficam limitadas, como os medicamentos estão sendo utilizados e o que o paciente precisa recuperar em sua vida cotidiana. Essas informações ajudam a definir o tratamento e a acompanhar os resultados.[1, 2]

Como a enxaqueca se manifesta?

A dor costuma ter intensidade moderada ou forte, pode ser pulsátil e frequentemente atinge um lado da cabeça. Atividades físicas habituais podem piorar o desconforto. Durante os episódios, também podem ocorrer náuseas, vômitos e sensibilidade aumentada à luz e aos sons.[1]

Essas manifestações variam. Pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar frequências diferentes de crises, combinações distintas de sintomas e respostas diferentes aos tratamentos. Na mesma pessoa, os episódios também podem mudar ao longo do tempo.[1]

Na consulta, além de explicar onde dói e qual é a intensidade, é importante relatar o que acontece durante o episódio: dificuldade para continuar trabalhando, necessidade de interromper tarefas, incômodo com o ambiente e sintomas que permanecem depois da melhora da dor.

O que é a aura?

Algumas pessoas apresentam aura, caracterizada por sintomas neurológicos transitórios e reversíveis. As manifestações visuais são as mais comuns, como luzes, linhas em zigue-zague ou áreas de dificuldade para enxergar. Também podem ocorrer alterações da sensibilidade ou da linguagem.[1]

A aura não está presente em todos os pacientes. Ela pode aparecer antes da dor, durante o episódio ou, em algumas situações, sem que haja dor de cabeça.[1]

Os sintomas podem começar antes da dor e continuar depois dela

Antes da dor, algumas pessoas percebem cansaço, bocejos, alterações do humor, desconforto no pescoço ou dificuldade de concentração. Depois que a dor melhora, fadiga e alterações da concentração ainda podem persistir, dificultando a retomada das atividades.[1]

Essas fases não seguem obrigatoriamente uma sequência rígida. Alguns sintomas se sobrepõem, e nem todas as pessoas reconhecem cada etapa. Também podem existir dificuldades entre as crises, como maior sensibilidade a estímulos.[1]

Por isso, a recuperação nem sempre coincide com o momento em que a dor diminui. Ao avaliar o impacto da doença, é importante considerar também o tempo necessário para voltar às atividades e as dificuldades presentes entre os episódios.[1]

Como a enxaqueca afeta a vida pessoal e o trabalho?

No trabalho, a enxaqueca pode levar a faltas, interrupções e dificuldade para desempenhar tarefas. Há também o presenteísmo: a pessoa permanece trabalhando, mas com rendimento reduzido por causa dos sintomas. A dor, a sensibilidade à luz e aos sons e as dificuldades de concentração podem participar dessa limitação.[1]

Na vida pessoal, os episódios podem prejudicar compromissos, convivência familiar e participação em atividades sociais. A imprevisibilidade das crises e o receio de novos episódios também podem influenciar decisões e planos.[1]

O impacto se estende à sociedade. Além das despesas com consultas, exames e tratamentos, existem perdas relacionadas à produtividade e à participação no trabalho. Parte do sofrimento, como deixar de aproveitar momentos importantes ou enfrentar incompreensão sobre a doença, é difícil de traduzir em números.[1]

A avaliação do tratamento precisa considerar essas consequências. Recuperar atividades, reduzir limitações e melhorar a qualidade de vida são resultados relevantes, além da redução dos dias de dor.[2]

Qual é a diferença entre tratar as crises e fazer prevenção?

O tratamento das crises é utilizado para aliviar os episódios. Já o tratamento preventivo, também chamado de profilaxia, busca reduzir sua frequência e as limitações causadas pela enxaqueca.[2]

Essas abordagens podem fazer parte do mesmo plano. Durante a consulta, é necessário discutir o que fazer quando uma crise acontece e se há indicação de um tratamento voltado à redução dos episódios futuros.

Para definir essa estratégia, o médico considera a frequência das crises, as limitações provocadas por elas, a resposta aos medicamentos e as condições de saúde do paciente. As preferências da pessoa também participam da decisão.[2]

Quando considerar o tratamento preventivo?

O tratamento preventivo deve ser considerado quando há quatro ou mais dias de enxaqueca por mês. Ele também pode ser indicado quando as crises provocam limitações importantes nas atividades, mesmo que sejam menos frequentes.[2]

O número de dias precisa ser interpretado junto ao impacto dos episódios. Uma pessoa com crises menos numerosas pode apresentar dificuldades expressivas, que também devem ser discutidas na consulta.

O uso excessivo de medicamentos para aliviar as crises exige reavaliação e pode indicar necessidade de iniciar ou ajustar a prevenção.[2] Informar os nomes dos medicamentos e os dias em que são utilizados ajuda a compreender o padrão de tratamento.

Quais são as possibilidades de tratamento?

Existem diferentes opções medicamentosas para as crises e para a prevenção. Os tratamentos preventivos incluem medicamentos orais de diferentes classes, terapias direcionadas à via do CGRP — uma substância envolvida nos mecanismos da enxaqueca — e, para pacientes com enxaqueca crônica, onabotulinumtoxina A.[1, 2]

A escolha depende do benefício esperado, da tolerabilidade, das contraindicações, de outras doenças, dos medicamentos já utilizados, da forma de administração e dos custos. Gestação, planejamento de gravidez e amamentação exigem atenção específica.[2]

O cuidado também pode incluir educação sobre a doença, atividade física e intervenções comportamentais. A indicação dessas medidas deve considerar as necessidades de cada paciente e a qualidade das evidências disponíveis para cada abordagem.[1]

Sono, alimentação e hidratação igualmente merecem atenção. As orientações devem ser adaptadas à rotina e às características individuais. Os fatores associados às crises podem variar entre as pessoas, e as observações de um paciente não devem ser transformadas em regras para todos.[1]

Como acompanhar a resposta ao tratamento?

Um diário de cefaleia pode ajudar a registrar os dias de dor, a intensidade, os sintomas e os medicamentos utilizados. Esses registros permitem comparar períodos e reconhecer mudanças que nem sempre ficam claras apenas pela lembrança da última crise.[2]

O acompanhamento deve avaliar também a capacidade de trabalhar, realizar tarefas e participar da vida cotidiana. Os objetivos precisam fazer sentido para o paciente e ser revistos conforme a evolução.[2]

A prevenção exige tempo para avaliação. Para a maioria dos medicamentos, a eficácia costuma ser avaliada após pelo menos oito a doze semanas na dose recomendada e tolerada. Esse prazo varia conforme o tratamento e não impede ajustes anteriores quando há efeitos adversos ou dificuldade para mantê-lo.[2]

Quando o benefício é insuficiente ou a tolerabilidade compromete a continuidade, outras opções podem ser discutidas. A decisão de manter, modificar ou retirar uma medicação deve ser individualizada.[2]

O cuidado com a enxaqueca busca reduzir o comprometimento causado pela doença e ajudar o paciente a recuperar atividades e bem-estar, com um tratamento adequado às suas necessidades.[1, 2]

Dr. Rafael William de Souza

Neurologista — CRM-PR 26931 • RQE 18196

Medicina pela Universidade Estadual de Londrina — UEL

Residência em Neurologia pelo HU/UEL

Pós-graduação em Dor — HC-FMUSP

Pós-graduação em Medicina Canabinoide — HC-FMUSP

Neurologia • Neurodesenvolvimento • Saúde Mental

Neurologia para todas as fases da vida

Referências bibliográficas

  1. Raggi A, Leonardi M, Arruda M, et al. Hallmarks of primary headache: part 1 – migraine. The Journal of Headache and Pain. 2024;25:189. DOI: 10.1186/s10194-024-01889-x.
  2. Potrebic S, Tanveer S, Becker WJ, et al. Pharmacologic Treatment for Migraine Prevention in Adults Practice Guideline Recommendations: Report of the AAN Guidelines Subcommittee and the American Headache Society. Headache. 2026;66:2173–2184. DOI: 10.1111/head.70199.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.

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